NO LIMITE

“Por que perdemos as rédeas dessa carruagem maravilhosa do bem viver para depois querer retomá-la?” Questionou Platão.

Dia desses, passando visita aos pacientes internados, como faço diariamente, passei pela UTI, onde tinha um jovem paciente de 55 anos, empresário, sedentário, com nível de estresse elevado, fumante e com sobrepeso, que vem em tratamento irregular comigo, há cerca de dois anos. Estava ali, por conseqüência de um acidente vascular cerebral, que também atende pelo nome de derrame.

Eu, ali, parado diante dele, relembrei-me de nossos diversos diálogos, durante suas irregulares consultas. Claro, todos em torno da necessidade de um controle da pressão arterial, face ao fato de ele as vezes esquecer de tomar medicação, ou, tentando fazê-lo ver a importância de manter uma atividade física regular, pois ia à academia quando tinha tempo, e isso nem sempre acontecia, fora o cigarro e o peso constantemente acima.

Salientei, sempre, o fato de ele ter uma genética que não o favorecia muito, pois os pais também eram hipertensos, além da mãe ser também diabética, o que aumentava muito seus fatores de risco.

Fato é, que ele sempre fazia nossa conversa derivar o para futebol, ambos coxas-brancas, e eu sendo conselheiro, sempre me cobrava algo também rsrs. Quando esgotava o assunto futebol, derivava para a culinária já que também somos amantes da boa mesa, principalmente em prepará-la. Ele sempre dava um jeitinho de levar a conversa para esses assuntos amenos e, claro, muito mais agradáveis.

Olhando-o, confesso, senti um misto de angústia e dó ao mesmo tempo. A angústia era por ele não ter escutado com a vontade necessária os meus aconselhamentos, sempre relevando sua saúde a um segundo plano. A dó era por ver uma pessoa extremamente do bem, divertido, honesto, um papo agradabilíssimo, com uma vida de luta, e que colhia frutos no momento. De repente, estava ali, em um leito de hospital, numa UTI, entubado, inconsciente(?), aguardando por uma melhor sorte na sua recuperação, não dependendo mais só dele, como dependia sua saúde outrora.

A grande questão que eu vivi naquele momento, e que motivou a temática deste artigo, é o que poderia estar passando por sua mente, já que não acredito na inconsciência total. Poderia estar “conversando” com Deus? Tipo – “Porque isso foi acontecer comigo?” Num primeiro momento , nunca percebemos que apenas colhemos o que plantamos. Que somos frutos de nossas escolhas. Num segundo momento ciente desses aspectos, vem as promessas. -“Permita-me sair dessa que mudarei radicalmente meu estilo de vida, cuidando mais de mim para poder, realmente , valorizar essa vida que me foi confiada.” Vem então o terceiro momento, quando se percebe que a negociação não está sendo muito boa, fase do desespero – “Por favor, só me dê mais um dia de vida, para que possa fazer tudo aquilo que preciso. Só um dia, para abraçar as pessoas que eu amo e dizer a elas o quanto as amo.”

Por que esperamos situações limites em nossas vidas para criarmos a consciência da necessidade de mudanças? Budha estava certíssimo quando disse – “A dor é o veículo da consciência.” “Mas por que não nos anteciparmos a esse limite e tomarmos o leme desse maravilhoso barco da vida e conduzi-lo por caminhos que pelo menos, estatisticamente, nos aproximem do ideal de equilíbrio de nossa saúde”, conforme palavras do Dr. Walter Dressel, médico uruguaio, preocupado com o descaso da saúde pelo ser humano.

“Por que perdemos as rédeas dessa carruagem maravilhosa do bem viver para depois querer retomá-la?” Questionou Platão.

Será que temos que ser regulados pela dor, realmente?

Será por isso a necessidade do corpo físico, limitado e falível?

Se assim o for, mais motivos temos ainda, para o cuidado com ele nos seus aspectos, físico e mental.

Espero que esse meu paciente saia dessa situação crítica em que se encontra, e implemente as mudanças tão necessárias para sua saúde e continuidade de sua vida, ainda que tenha sido motivado pela dor, para que possamos dar continuidade às nossas maravilhosas conversas, porém, como sempre propus, com futebol e gastronomia ficando para o segundo plano.

Dr. Edmilson Mario Fabbri
Revista Ciência e Fé
Ano 23 – nº 267 – Agosto 2022
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